Da ordem ao caos, do caos à lama

"Réplica" a 'Ode ao caos'

Você acorda um dia e descobre que os 6 bilhões de habitantes do planeta Terra, na verdade, eram Coringas disfarçados. Nessa manhã, todos resolveram mostrar sua verdadeira identidade, inclusive você - todos Coringas, todos seres caóticos. Enquanto seres caóticos, nada nesse mundo se repete, os humanos tornam-se realmente "independentes" - cada um com sua própria vontade, seus próprios atos, talvez sem motivos finais aparentes. Imagine tudo isso. Só imagine, porque se você tentar pensar-se dentro dessa situação, você não conseguirá, porque não seria possível, já que no planeta Coringa nada é porque não se "repete", não há regularidade nesse mundo. O caos, para ter sentido, depende da ordem.
O que quero dizer é que a ordem enquanto regularidade, hábito, não faz simplesmente parte da nossa vida, ela é a nossa vida como nós a entendemos em suas diversas manifestações. Acho realmente impressionante como, na medida do possível, nosso mundo pode ser organizado mesmo com a presença de tantas culturas, tantos indivíduos. Um exemplo aparentemente banal: as línguas. Como podemos, nas Américas, fazer acordos econômicos se falamos (além das não-oficiais) inglês, espanhol e português? Falamos línguas diferentes e, no entanto, fazemos acordos. Tudo isso depende essencialmente de um movimento de disposição a se colocar no terreno do outro ou de ambos colocarem-se em um terreno comum - tradução ou adoção de uma língua para as negociações. No planeta Coringa, cada ser falaria uma língua própria, que nenhum outro falaria. Novamente, podemos imaginar, contudo não poderíamos sequer pensar nisso vivendo nesse estranho planeta, porque nenhuma linguagem existiria: onde dois ou mais estão presentes, além de Deus, está presente a linguagem; onde só um está presente, temos, no máximo, alto-falantes. E no caso do Direito? As leis não evitam assassinatos, só punem aqueles que optarem por não segui-la. A lei não é legitimada se não for seguida pela maior parte da população de um determinado local, ou seja, quero dizer que várias pessoas devem combinar ou resolver viver de uma determinada maneira para que façam sentido os artigos de uma Constituição. E, mais uma vez, me surpreende a constatação de que a maioria dos homens não é "criminosa", que, além do poder coercivo da lei, as partes interessadas devem entender que existe alguma vantagem ao segui-la.
Não falo sobre submissão, controle, repressão, falo sobre cooperação tendo em vista um fim comum. Falo sobre racionalidade e irracionalidade. A ordem é uma condição de vida comunitária.
Paul Grice, filósofo de Oxford dos mais importantes da segunda metade do séc. XX, defendia que um princípio cooperativo geral rege todas as ações humanas e que ele não depende essencialmente de cada cultura. Cada ação humana dependeria, então, de intercâmbios cooperativos - quando se conversa , o que ocorre não é uma troca de sinais sonoros, mas um esforço de ambos os participantes numa mesma direção. Essa interação/cooperação é essencial para a manutenção de um diálogo - e, portanto, dos nossos modos de vida. Quando damos um passo para fora desse cenário, temos o caos e, seguindo nesse pensamento, a irracionalidade. Quando assisti ao novo filme do Batman com a sufocante atuação de Heath Ledger, pensei que o Coringa poderia representar alguém que nunca ouviu falar de Paul Grice. Deixando a brincadeira de lado, entre várias impressões, uma das que mais me incomodaram na saída pelo corredor foi a de que o Coringa é alguém que simplesmente não quer cooperar, que não leva em conta o outro e que, assim, toma uma posição irracional. Como lidar com alguém que continua a rir sempre quando é repreendido e até quando apanha? Tal tipo de desprezo e auto-afirmação não funcionam em um mundo onde, para o bem ou para o mal, reconhecemos o vizinho como um ser como nós e, até certo ponto, com os mesmos objetivos (ser feliz?). A ordem presente no Batman, escuro como nunca, não evita que o personagem apresente também uma auto-afirmação pouco produtiva. E só posso dizer isso porque Batman e Coringa não visavam os mesmos objetivos e, por esse motivo, não precisavam cooperar um com o outro. Por isso, eles não podem viver juntos, porque não estão dispostos a ceder, a ouvir e a construir algo novo com a contribuição que cada um pode dar para uma Gotham menos sangrenta. A irracionalidade não está no Batman e nem no Coringa, na verdade, mas somente no fato de eles não serem cooperativos.
Da ordem, chegamos ao caos. Partindo do caos, só podemos chegar à lama. Ilhas de lama. Do Coringa ao mundo, uma defesa radical da afirmação da soberania de práticas culturais/sociais, como ainda podemos ouvir algumas vezes nos dias de hoje, nos leva a visualizar micro-mundos autistas. Não é possível ignorar a realidade de uma comunidade global, de pessoas em contato em todas as partes do planeta. Não quero "culturas imperialistas vitoriosas"; só gostaria de ver Batman, Coringa e alguns outros "vilões" batendo um papo em uma mesa de bar.

PS: A poesia é a melhor defesa do "caos".


4 comentários

  1. farinata  

    9 de agosto de 2008 15:26

    E viva a pragmatica universal!ou melhor, pela barzificação dos conflitos mundiais!

    deixa me ver se entendi: a irracionalidade é SO o coringa, ou SO o batman... é isso? porque se for entao concordamos. Razão para mim é a corda bamba entre eles.

    de-nos um exemplo da defesa da poesia contra o caos!!!

  2. d.ferdinand  

    9 de agosto de 2008 17:27

    não, a poesia é a defesa do caos! haahhaa...

    Acho q concordamos. Só acho q a irracionalidade está no fato de os dois não cooperarem. Aí ela está "no meio" e nos dois ao mesmo tempo. Minha defesa é um tanto utópica e até inocente, pq propõe o fim das inimizades..haahha... .mas é por aí...

  3. farinata  

    10 de agosto de 2008 13:08

    iiii.. entao eu entendi tudo errado..ahah..
    eu pensei que a poesia era metrificação.. ela domina o caos! mesmo um punhado de palavras aleatorias nao significa algo na poesia?

  4. farinata  

    10 de agosto de 2008 13:10

    digamos assim: ela faz o papel (necessario) do coringa bem na nossa cara. Mas sem explodir ninguem (na maioria das vezes).