“Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse... Sim, são para se ter medo, os espelhos”
‘O espelho’ - João Guimarães Rosa
Correu desesperadamente de volta para seu apartamento. Ao entrar, conferiu várias vezes se a porta estava realmente trancada – não havia razão para isso, era só um meio de expor para si mesmo seu medo e desespero de algo que não entendia. Sentado novamente sobre sua cama, pensava sobre o que podia estar acontecendo e, ao mesmo tempo, em um teste que fosse infalível para conferir sua sanidade mental. Além dos remédios, também culpava a eternidade que passou isolado em seu quarto, tantos anos sem sentir as ruas e seus movimentos – tudo isso poderia ser efeito do seu pavor das outras pessoas, que, no fundo, era pavor de si mesmo, pavor desse seu pavor. Era essa sua hipótese mais recente e mais elaborada.
Com as mãos firmes sobre o colchão, encontrou aquilo que colocaria tudo novamente em ordem: ligar a TV e logo verificar que o apresentador do telejornal e que o jogador de futebol continuavam sendo quem realmente eram – um não-Valter. Com o indicador parado diante do on/off, hesitou por alguns instantes. O medo era inevitável. Fechou os olhos e ligou a TV. Não ouvia nada, deduziu que o volume estava zerado. Suas pernas tremiam conforme o volume ao ser aumentado aos poucos: sua voz estava saindo daquela caixinha. Abriu os olhos e, caindo de joelhos, viu que, não só o homem do jornal era ele, como também a moça que costumava acompanhá-lo – ambos eram Valter. Assistia, paralisado, e não conseguia pensar enquanto o bandido sendo preso era ele, o curador da exposição, o grupo de jazz que se apresentará em sua cidade, o tão conhecido personagem que vende esponjas de aço nos horários comerciais. Num só impulso, pulou sobre a TV que, no chão, desfez-se em milhões de transistores destruídos a golpe de cadeira.
Parado em frente aos restos do eletrodoméstico, a vermelhidão em seu rosto raivoso não representava em nada o frio intenso que tomava conta de seu espírito. Sentiu-se sozinho, como nunca antes trancado naquele apartamento. Por esse motivo, caiu em risos. Ver-se sozinho nesse mundo de espelhos parecia uma piada de um metafísico qualquer. Nem tanto. A partir desse momento, a repulsa por outros se transformou em obsessiva curiosidade. Ainda não havia aceitado sua condição atual e, no fund
o, não acreditava na realidade de tais fatos, no entanto, havia uma obrigação de procurar sua própria face em cada homem que habitasse esse planeta. Fazia-se necessário testar todos os espelhos. Decidiu esperar a noite chegar novamente para começar sua perseguição a si mesmo. O dia é movimentado demais, muitos rostos, muitos olhares – “seriam muitos eus”, disse Valter diante de seu espelho iluminado pelos primeiros raios de sol.
No fim da tarde, comeu um pouco e percebeu (como se estivesse garantido por uma fórmula mágica) que, se fizesse tudo novamente da mesma forma como havia feito a noite passada, a situação poderia voltar ao normal e ele se livraria dessa estranha maldição. Foi o que, então, fez – sentou, levantou, fumou na janela, sentou, olhou as luzes e foi para a rua com seu agasalho – com a mesma duração aproximada com que havia feito na atormentada noite anterior.
Em seu primeiro passo para fora do portão do prédio, quase foi derrubado por alguém que passava a passos muito rápidos e largos, parecendo muito afobado. Sem ao menos pensar em resmungar, preferiu seguir aquele homem a uma distância razoável sem dele tirar os olhos. Ao virar a esquina oposta a da banca de jornal, o homem começou a correr muito, com a mão direita dentro do bolso. Valter decidiu correr também, cheio de curiosidade que estava para saber aonde “ele” queria chegar. Para sorte de seus pulmões, o homem a sua frente parou de correr dali alguns segundos e se encostou a uma parede pouco iluminada, como se quisesse se esconder, ainda com a mão dentro do bolso. Valter, então, decidiu continuar andando como se fosse só mais um andarilho noturno - a tentativa de ver o rosto daquela pessoa foi em vão, a escuridão tomava conta da rua. Optou por parar ali, logo do outro lado, onde ainda pudesse manter contato visual com o “estranho” e não despertasse grande desconfiança. Mal havia se acomodado, logo teve a visão ofuscada por um carro que fazia a curva em alta velocidade e que, derrapando, parava com os faróis denunciando aquele homem a quem havia perseguido desde sua casa. Por mais que entendesse que aquela situação não era nada boa, Valter sentiu certa satisfação com o horror que enxergava novamente: o homem escondido era outro Valter.
Inesperadamente, sentiu medo, um medo que só crescia enquanto o motorista saía do carro gritando com o outro acuado. Quando o motorista também é revelado pelos faróis, a piada se repete: Valter se vê novamente ali, cobrando dinheiro e outros favores do Valter acuado. Então, também sentiu raiva, uma vontade de vingança que parecia não ser saciada a não ser com sangue. Logo teve início uma luta selvagem entre suas duas réplicas: o primeiro soco do motorista foi surpreendido por aquela mão que saía do bolso com um canivete que foi diretamente no estômago de seu opositor – um terrível grito de dor. Ao mesmo tempo, ali, Valter como espectador também soltou um grito como se ele tivesse sido acertado pela mão traiçoeira. Só o grito, sem o sangue. A dor perdeu-se entre a raiva e o medo que vinha sentindo, e todas essas sensações construíam parte de um desespero ainda maior por toda aquela seqüência fantástica que ocorria nas ruas e em seu corpo - tudo ao mesmo tempo sem conseguir discernir exatamente o que era seu do que não era.
Tratou de logo correr para qualquer lugar que fosse, só não podia continuar ali, vendo e sentindo tudo aquilo. Não demorou a entender o que havia acontecido: ele estava sentindo exatamente aquilo que acontecia a seus outros ‘eus’: se caíssem, as pernas lhe doeriam; se chorassem, a tristeza tomaria conta de seus olhos; e, se lutassem entre si, ficaria naquela situação indescritível, onde não havia mais limite exato entre o que era seu e o que não era. Na verdade, recebeu em forma de “revelação” que poderia, a partir daquele instante, ter de suportar todas as dores e alegrias do mundo – “se todos são eu”. Tudo era seu e, ao mesmo tempo, não era – ‘tudo ao mesmo tempo agora’.
(Imagem: 'Golconde' - René Magritte, 1953)
César
7 de julho de 2008 16:56
Cara, o Ferdinand inventou o folhetin-metafísico-virtual-pósmoderno
Boa Ferdinand, vc será o próximo Dan Brown hahahahah (brincadeira!)
d.ferdinand
7 de julho de 2008 18:31
hahahaha..
Victor
8 de julho de 2008 17:10
dan brown não né césar!
d.ferdinand
8 de julho de 2008 17:26
não, tem problema, não, dá mó grana ser o dan brown!!!
César
8 de julho de 2008 17:44
é claro que isso foi só uma brincadeira despropositada..... na verdade ele ta mais pra um Paulo Coelho moderno, o Mago Virtual.
farinata
14 de julho de 2008 11:09
"o garoto pos-moderno ataca outra vez!!"
-New York Times-
"O melhor folhetin-metafísico-virtual do ano!!"
-Folha Ilustrada-
"O cara parece o Dan Brown sem as viadagens!!"
-Blog "Me Leva Paraqueda!"-
farinata
17 de julho de 2008 23:35
faz o proximo conto passar no CRUSP!! ahha.. puta idéia.
conto sobrenatural! ahaha..
d.ferdinand
18 de julho de 2008 19:11
haahahahahahahhahaha... mancada... aahahahahah