“'Till I finally died
Which started the whole world living
Oh if I'd only seen that the joke was on me”
‘I started a joke’ – Bee Gees
Havia duas noites que Valter não conseguia dormir. Quase três. Não vinha se sentindo bem desde que, novamente, teve a dose de seus remédios aumentada para que pudesse suportar as dores constantes que martelavam freneticamente sua cabeça. Ele já estava acostumado com insônias por causa das dores, porém, dessa vez, mesmo com as dores razoavelmente controladas, os comprimidos e as gotas alteravam levemente a sensibilidade de seu corpo, suas pupilas no espelho pareciam mais dilatadas e não havia água ou álcool que conseguisse manter sua boca úmida. Com a língua seca, as palavras, em vez de escorregarem, rolavam como pedras em seu solilóquio noturno.
Nessa noite, repetiu o que já se tornava hábito até para os moradores de rua que se escondiam na esquina do seu prédio: ficavam atentos à janela do 7º andar do prédio, que a qualquer momento da madrugada se abriria, e dela, alguém aparecia atrás de uma ponta de cigarro por não mais do que 2 minutos. Na verdade, Valter mal tragava o cigarro – acreditava que, ao fazer isso, ficaria mais relaxado e conseguiria pegar no sono. Não nessa noite. Voltou para debaixo do cobertor, virou-se para a esquerda, para a direita, deitou-se com a cabeça nos pés da cama, até que parou de tentar. Conformava-se com mais uma madrugada em claro, apesar de suas pernas e rosto já estarem muito cansados. Agora sentado diante da janela ainda aberta, olhando para o tapete, raciocinava sobre algo que o pudesse fazer, ao menos, companhia. Os livros: esses não. Na noite passada já havia discutido com Sartre, o que contribuiu para o aparecimento de outra dor no lado esquerdo da cabeça e outra nos dedos da mão esquerda. Música: seus alto-falantes haviam queimado e outros já estavam a caminho, encomendados. Levantou a cabeça, olhou através da janela e viu os milhares de luzes que vigiavam a cidade e se misturavam às estrelas na altura das antenas. ‘Sim, as luzes!’ - disse Valter para si mesmo. (Algo que lhe agradava muito era observá-las durante a madrugada e pensar sobre o efeito que imprimiam às coisas sob o silêncio do sono dos homens). E decidiu algo revolucionário repentinamente, algo que só o estado em que estava poderia fazê-lo pensar: descer as escadas e aproveitar as ruas vazias para ver as luzes de iluminação dos postes mais de perto, ver sua sombra nas calçadas.
Devidamente agasalhado, sentiu o coração acelerar ao primeiro passo para fora do portão. Não sabia se era uma resposta à falta de descanso ou sinal de ansiedade. Certo é que não se lembrava da última vez que havia colocado os pés pra fora de seu apartamento e desconfiava que a noite nunca o tivesse visto a não ser atrás daquela janela. Seus remédios, comprava ilegalmente por sites na internet para não consultar médicos. Havia criado uma tecnolo
gia para não sair mais de casa. Funcionava. Desde que se mudou de sua cidade natal após a morte de seus pais, ainda adolescente, nunca mais teve contato com quaisquer parentes. E praticamente nunca mais teve contato com nenhuma outra pessoa diretamente. Começou a andar: seu plano era andar até a esquina, virar em direção a banca de jornal falida, chegar até a praça e voltar, nada que levasse muito tempo (as noites de maio não são as mais recomendáveis para passeios noturnos). Sempre olhando para o chão, ia notando como a sua silhueta mudava de formato conforme a incidência das luzes que vinham dos postes, das lojas. Às vezes, quando percebia um carro se aproximando, erguia os olhos para ver sua sombra esticada dividindo-se entre a calçada e a parede, e logo tratava de continuar evitando “a altura dos olhos”. No entanto, num desses momentos em que arriscava erguer levemente sua cabeça, viu o que menos desejava encontrar: um homem, encostado na banca de jornal, esfregando as mãos para espantar o frio. Tratou de desviar o olhar o mais rápido possível. O homem também não chegou a perceber que tinha sido fitado por alguns segundos. Muito incomodado, continuou sua caminhada. Quando já começava a fazer a volta na praça para voltar, lembrou-se da rápida imagem daquele homem e teve a impressão de que ele se parecia muito com ele, Valter - seu nariz, seu cabelo, o modo de atirar o cigarro antes de esfregar as mãos uma na outra. Nada além de interessante, pois não foi agradável ver alguém depois de tanto tempo longe dos outros de sua espécie.
Valter contornava a praça pela rua, pois considerava as luzes da praça muito numerosas e intensas, configuração que o deixava mais exposto que o desejado. Já de costas para a praça, ouviu começar uma conversa em vozes altas e não conseguiu conter o interesse: estando de longe e já tendo entrado em contato direto com outra pessoa, resolveu olhar para trás. Viu três pessoas – duas de costas para ele e uma de frente, a que falava mais alto. Aquela voz fez com que seu coração batesse ainda mais rápido e que se esforçasse, com a visão já debilitada, para alcançar o rosto do dono daquela voz. O que avistou só confirmou o que aquele sotaque indicava: as fortes luzes da praça iluminavam um rosto igual ao seu, assim como tinha visto no homem na banca de jornal, só que agora com muito mais clareza. Obviamente, não acreditou no que via e ouvia, e responsabilizou sua insônia, suas dores e seus remédios por tamanha insanidade. Tal fato fez com que Valter apressasse os passos para chegar logo em casa.
Ainda mais cansado, chegou a seu apartamento, tirou somente os sapatos e se colocou novamente sobre a cama. Agora se sentia ainda mais doente por achar que algum ponto, por menor que fosse, de sua sanidade mental estivesse começando a ficar comprometido por causa das altas doses de remédios. Mal percebeu, estava dormindo, estático. Era tudo o que desejava, já que o sono era a rara injeção de alívio e esperança de que precisava para suportar mais um dia suas escolhas dentro daquele apartamento.
Antes do desejado, foi acordado por seu despertador. Já era quarta, e como de costume, agendava o despertador para tocar pouco antes de o sol nascer para que pudesse levar os sacos de lixo de seu apartamento até o térreo sem encontrar com ninguém nas escadas e corredores. Levantou-se, lavou rapidamente o rosto, acertou o cabelo e desceu com ambas as mãos ocupadas. No caminho de volta, notou que câmeras de segurança haviam sido instaladas por todo prédio e que logo antes da escada principal havia um monitor. Quando Valter fixou o olhar na tela, que mostrava o que acontecia no 3º andar, viu um homem de terno fechando o apartamento e indo em direção as escadas. Nesse instante, a câmera pôde registrar sua face: para espanto paralisante de Valter, que culminou em uma rápida gargalhada desesperada, o provável empresário também era como ele, era como se Valter estivesse vendo a si próprio na tela. Absurdamente desconfiado do que estava acontecendo, escondeu-se do outro lado do saguão principal para poder observar o homem que descia as escadas para trabalhar. Pôde ver seus passos, seu olhar, o terno levemente caído para a direita, provavelmente por causa da escoliose, que Valter também tinha. A evidência estava ali, a oito passos de distância, seus passos ecoavam no saguão vazio, suas tosses ríspidas – era tudo muito real. Não havia dúvidas, era ele.
Victor P.
31 de maio de 2008 14:36
eu achei que você ia contar a piada do cavaleiro branco do cavalo preto-e-branco!
ahaha
d.ferdinand
31 de maio de 2008 16:27
que piada é essa? hahahahaha...
d.ferdinand
31 de maio de 2008 16:27
ahhhhhhhhhhh, entendi, pelo título né?@ hahahahhahahaha
Victor P.
31 de maio de 2008 16:43
é!!
farinata
31 de maio de 2008 16:46
mas a maior/mais extensa piada do mundo é a do "homem gato-galinha" !!
Victor P.
31 de maio de 2008 16:49
acho que a do cavaleiro ganha... é mais ou menos do tamanho do senhor dos aneis
d.ferdinand
31 de maio de 2008 16:55
é q vcs não escutaram a piada confucionista do Tiziu. Insuperável. E os risos duram o dobro de tempo da piada.
César
31 de maio de 2008 17:38
Po eu nao conheço nenhuma delas, agora a gente vai ter que se juntar pra vcs contaraem essas piadas
farinata
3 de junho de 2008 10:06
aguardamos a segunda parte!!
esqueçe esse negocio de ciencia e parte para a arte!!!
farinata
8 de junho de 2008 14:25
a piada mais LONGA pode ser motivo de controversias... mas a mais CURTA nao!!
é a piada do pinoquio, contada pelo ricardinho!!